Do Caos à Ordem - II

Gerações Ideais

Às vésperas dos belos dias do futuro cujas auroras exalarão festividades, claramente, enfrentamos crises que parecem intransponíveis. Assim como as dificuldades sociais, problemas nacionais e desastres naturais, as crises que cercam a sociedade não podem ser superadas ou resolvidas por medidas mundanas. Soluções para tais crises dependem da proliferação do discernimento, conhecimento e sabedoria. É inútil e, de fato, uma perda de tempo – tentar resolver tais crises com políticas sem objetivos, limitadas e pouco promissoras como as manobras políticas mundanas. No passado e no presente, pessoas de espírito, essência e discernimento solucionaram facilmente as depressões e crises mais comuns e mais difundidas com horizontes amplos e fervor, utilizando e ativando as atuais fontes de poder em nome do futuro. Alguns leigos imaginam que as medidas engenhosas dessas pessoas são super-humanas, admiram-se e maravilham-se com elas. Contudo, o que tais pessoas fazem, assim como outros indivíduos bem-sucedidos, é usar completa e eficientemente a capacidade, os talentos e as oportunidades presenteadas a elas por Deus Todo-Poderoso.

Pessoas de discernimento, em todas as suas ações e atitudes, estão sempre ocupadas e preocupadas com planos e projetos para o hoje e para o amanhã. Elas usam tudo que têm, todas as possibilidades e oportunidades como meio para construir a ponte que leva ao futuro. Sempre sentem a dor e aflição de levar o presente ao futuro. Resolver problemas depende, de certa forma, de superar-se o tempo presente e de pôr-se acima do tempo. Ou seja, ser capaz de ver, prever e avaliar o hoje e o amanhã de maneira igual. Podemos chamar tal escopo de pensamento – que requer abraçar o amanhã desde hoje e compreender o espírito, essência e conteúdo do futuro – um “ideal”. Aquele que não tiver tal horizonte nunca será capaz de vencer a enormidade de problemas, nem prometer nada para o amanhã. Mesmo que algumas pessoas simplórias tenham alcançado grandes proporções, com a pompa, circunstância e magnificência de Faraós, Ninrodes, Césares e Napoleões, suas vidas tumultuosas e héticas, que deslumbraram a tantos, nunca se tornaram e nunca se tornarão promissoras para o futuro. Pois tais pessoas, miseráveis e ignóbeis, subjugaram a verdade ao comando do poder, sempre buscaram formar laços sociais por conveniência, em troca de interesses e lucro próprios. Foram pessoas que viveram escravizadas por não aceitarem a liberdade devido ao rancor, egoísmo e volúpia.

Em contrapartida, os primeiros Quatro Califas Bem Guiados e, depois deles, os otomanos realizaram trabalhos extremamente importantes, cujas consequências ultrapassam a realidade desse mundo e alcançam o próximo. Obras que, em sua essência, perdurarão por séculos e cujo valor só pode ser apreciado por aqueles que não se iludem com eclipses temporários. Apesar de terem vivido suas vidas, cumprido seu dever plenamente e já terem falecido, aquelas pessoas sempre serão lembradas e mencionadas e sempre encontrarão um lugar em nossos corações como pessoas boas e admiráveis. Em cada canto do nosso país, o espírito e essência de pessoas como Alp Arslan, Malik Xá, Osman Gazi, Fatih e muitos outros espalham-se como o cheiro de incenso. Esperança e boas notícias adentram nossos espíritos com a visão deles.

César pisoteou o ideal de Roma com seus caprichos e vontades, Napoleão aprisionou e assassinou o ideal da Grande França em sua ganância e ambição e Hitler destruiu os objetivos da Grande Alemanha com sua loucura. Por outro lado, o ideal de nosso povo, cujo heroísmo exprime integridade e continuidade, sempre foi mantido acima de toda maldade e vulgaridade, na vitória ou na derrota. Esse ideal é considerado precioso, sagrado. É amado e estimado como uma bandeira pela qual vidas são sacrificadas. Sob tal bandeira, Fatih conquistou Constantinopla; Suleiman, o Magnifico, avançou para o ocidente e nosso povo, durante a Primeira Guerra Mundial e a Guerra Nacional, manteve sua lealdade e sacrificou-se por entender que a bandeira deve tremular para sempre.

Um ideal nas mãos do homem ideal alcança os valores mais elevados e se transforma no amuleto da vitória e da conquista. Porém, se aqueles que representam tal ideal não forem as pessoas certas para a tarefa, então a causa se tornará uma bandeira sob a qual se expressam caprichos e ambições comuns e insignificantes. Apesar de tal bandeira ser capaz de reunir os jovens nas ruas, levando-os a acertarem alguns alvos, como num jogo, ela não é capaz de enxergar as emoções e aspirações existentes nas profundezas da alma de nosso povo.

Uma pessoa de ideal é, antes de mais nada, um herói de amor, que ama devotamente a Deus, o Poderoso Criador, e sente um interesse profundo por toda a criação sob as asas daquele amor. Alguém que abraça a tudo e a todos com compaixão, repleto de afeição pelo país e pelo povo. Pessoas visionárias cuidam das crianças como um embrião do futuro e aconselham os jovens a se tornarem pessoas com ideais, dando a eles objetivos e metas elevados. Elas honram os idosos com respeito e estima incondicionais, constroem pontes sobre os abismos para ligarem e unirem diferentes segmentos da sociedade e fazem todo o possível para refinar e abrilhantar a harmonia existente entre as pessoas.

O verdadeiro idealista é, também, uma pessoa sábia. Ao mesmo tempo em que observa tudo do ponto de vista abrangente da razão, examina todas as coisas pelas métricas de um coração compreensivo, testando-as pelos critérios da autocrítica e da autoanálise, manuseando-as e formando-as no crisol da razão e sempre tentando aumentar o esplendor da mente e a luz do coração.

A pessoa idealista é verdadeiro exemplo de responsabilidade para a sociedade em que vive. Para alcançar seus objetivos, cujo primeiro é agradar ao Criador, ela sacrifica tudo que Deus lhe concedeu sem pensar duas vezes. Tais pessoas não temem, nem se preocupam com nada que seja mundano e seus corações não são cativados por nada além de Deus. Elas não têm desejo de felicidade individual nem se preocupam com a infelicidade. São salvadoras, heróis do espírito e não se importam de viverem no fogo do inferno, contato que seus ideais e seu país estejam sempre firmes, estáveis e permanentes.

A pessoa de ideais e prestígio tem respeito pelos valores a que está ligada e profunda autocrítica. Executa suas tarefas na alegria da adoração e vive como herói de amor e entusiasmo. Seguindo e agindo de acordo com a verdade, com sensibilidade minuciosa e meticulosa, ela sempre exerce sua preferência por ideais sublimes. Está sempre lutando nas profundezas de seu coração: uma luta constante para tornar-se mestre de si mesma. Ela é escrava da verdade e não tem interesse ou desejo por cargos ou títulos e vê a fama, a cobiça e o apego ao conforto e comodidades como um veneno fatal. É por isso que tais pessoas sempre vencem quando têm uma oportunidade e transformam circunstâncias desfavoráveis em vantagens.

Ao caminhar nessa senda junto aos espíritos gloriosos, tais pessoas estão tão sinceramente dedicadas à Vontade de Deus que as tempestades de ambições que as atingem simplesmente intensificam e consolidam seu senso de verdade, justiça e correção. Inundações de ódio, rancor e malícia enchem as fontes em suas almas com amor e compaixão. Elas ignoram e passam ao largo das dádivas e bênçãos às quais pessoas ordinárias se prendem. Além disso, tais pessoas se opõem a retaliações. Se pensarmos sobre tais heróis visionários em seu verdadeiro horizonte, um lugar que deixa a mente perplexa, seremos capazes de visualizar uma pessoa de resolução quase profética. Imagens super-humanas invadem nossos sentimentos pelas portas que foram abertas por aqueles parceiros, nossa imaginação transborda com exemplos de heroísmo. Somos cativados pela lealdade e sinceridade de Uqba ibn Nafi nos desertos africanos. Somos arrebatados pela braveza e intrepidez de Tariq ibn Ziyad após a travessia de Gibraltar. Perdemo-nos em admiração por Fatih (Mehmed II) e sua determinação. Ficamos encantados com Gazi Osman Paxá em Pleven e saudamos com reverência os Leões de Galípoli[i], sobre cujas cabeças choveram bombas e granadas e que enfrentaram massacres sorrindo.

Tudo que precisamos são pessoas exemplares com caráter e ideais elevados. Tais almas exaltadas, com os mais elevados ideais, concretizarão o reestabelecimento de nossa nação nos próximos anos. Aquelas pessoas históricas, cuja existência foi fermentada pela fé, amor, sabedoria e discernimento, não se renderam nem se abalaram com os numerosos ataques internos e externos que duraram quase dez séculos. Talvez, elas tenham diminuído um pouco e se tornado menores. Contudo, com força e firmeza, alcançaram um nível em que puderam acertar suas contas com o futuro. Elas observaram sua época e esperaram a hora certa para assumir sua tarefa com um poder espiritual extraordinário.

É verdade que, nos últimos tempos, o amor, a sabedoria, o discernimento e a consciência sobre a responsabilidade diminuíram e assuntos simples do cotidiano substituíram os grandes ideais. Certamente, é impossível dizer que nada foi feito em nome da reforma durante aquele período. Porém, o que foi realizado continua a ser apenas mimetismo e efeito sonoro. Tal imitação cega, como disfarce para introdução do vício e da imoralidade na filosofia da nação e como meio de destruição espiritual, trouxe mais prejuízos que benefícios. No momento em que a nação sangrava devido a ferimentos infligidos à perseverança da comunidade, o verdadeiro problema nunca foi diagnosticado, a forma de tratá-lo e curá-lo nunca foi reconhecida ou definida. O tratamento incorreto e a interferência externa fizeram com que as massas ficassem paralisadas. Os efeitos das crises dos últimos séculos ainda se fazem sentir hoje em dia em arroubos, erupções e explosões de ira.

Portanto, assim como antes, se não lidarmos com as verdadeiras causas dos problemas; se não abordarmos e tratarmos os problemas individuais, familiares e sociais com a habilidade, sensibilidade e destreza de cirurgiões; se não nos salvarmos do lamaçal de vícios, imoralidade, afazeres e negociações imundos com os quais temos lutado por séculos, cometeremos um erro após o outro enquanto buscamos por soluções, nossa crise tornar-se-á muito pior e mais profunda e nunca nos livraremos dos círculos viciosos e das depressões.

Não importa se aqueles que seguram as rédeas continuam em sua velha obstinação. Temos confiança profunda nas gerações ideais cujos pensamentos, sentimentos e ações estão voltados para o futuro, amam e são devotas ao seu país, seu povo e seus ideais; nas pessoas que focam em servir e contribuir para o povo e para toda humanidade. Pessoas que estão tesas e prontas para serem disparadas como a corda de um arco, prontas para servir a todos com a compreensão e consciência de sua responsabilidade. Acreditamos que elas resolverão e superarão toda negatividade e farão com que um novo progresso se torne realidade. Um dia, seus sonhos e vontades, seu amor e desejo de servir ao povo penetrará todos os segmentos da sociedade e se transformarão em sementes que florescerão onde quer que caiam. Essa abordagem, que erradicará as ditas realidades do materialismo e da corporeidade, certamente, tecerá mais uma vez seu tecido espiritual com uma visão própria do mundo e um plano de ação.



[i] Mártires da Batalha de Galípoli.

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