O Amanhã

Esculpindo Nossas Almas

Anteriormente, esbocei brevemente os atributos dos herdeiros da Terra. Agora, clarificarei e discorrerei sobre esses atributos.

O primeiro atributo dos herdeiros é a fé perfeita. O Alcorão estabelece que o propósito da criação dos seres humanos é crer em Deus com o horizonte de conhecimento, o espírito do amor, a dimensão do amor elevado, o zelo jubiloso e as nuanças do prazer espiritual. Seres humanos são responsáveis por erigir seu mundo de fé e pensamento, seja estabelecendo caminhos a partir de sua própria essência para as profundidades da existência ou tomando vários atalhos a partir da existência e analisando-as em sua essência. Isso também requer a emergência da verdade humana latente em sua alma. Somente à luz da religião, podemos perceber nossa essência e tornar-nos conscientes dos aspectos internos do universo, dos eventos e daquilo que está além. Assim, podemos compreender a existência dentro de suas dimensões. Descrença é um sistema obstruído, bloqueado e engasgado. Aos olhos do descrente, a existência começa com caos, desenvolve-se nas assustadoras incertezas da coincidência e dirige-se rapidamente para um fim terrível. Nesse retumbar e ribombar incerto não há o sopro da compaixão de Deus para aliviar ou alegrar a alma, não há um lugar de refúgio para que, com nossas aspirações humanas, nos sentemos ao sol em segurança e sintamos brisas frescas e confortantes, nem um pequeno ponto de apoio em que pisarmos.

Por outro lado, a pessoa de fé que enxerga sua rota e destino, suas obrigações e responsabilidades vê a tudo como pleno, radiante e iluminado. Ela pisa onde deve sem a menor ansiedade e caminha para seu destino sem medo, com confiança e segurança. Em sua jornada, ela investiga inúmeras vezes a existência e aquilo que está além,disseca repetidamente as coisas e eventos,tenta abrir todas as portas e busca estabelecer relações com todos os objetos. Quando seu conhecimento, experiência e descobertas são insuficientes, ela se contenta com os fatos, na extensão em que foram confirmados por si mesma ou por terceiros, e continua em sua jornada.

Por esse critério, percebe-se que o viajante de fé descobriu uma fonte muito importante de poder. A munição e tesouro pertencentes à eternidade e expressos em “Não há força nem poder, exceto em Deus” são uma fonte tão importante de poder e luz que aquele que os adquire não precisa de nenhuma outra. Essa pessoa sempre enxerga e conhece a Deus, apressa-se a se juntar à Sua comitiva e séquito e direciona sua vida para Ele e de acordo com Ele. Ela pode desafiar todos os poderes mundanos na proporção de seu conhecimento e confiança em Deus, com a esperança de que pode superar todas as dificuldades. Mesmo sob as circunstâncias mais adversas, ela vive em zelo jubiloso e nunca cai em pessimismo.

Dado que esse assunto é objeto de trabalhos como o Risale-i Nur e muitos outros livros, remeto os leitores àqueles trabalhos e passarei ao segundo atributo.

O segundo atributo dos herdeiros é o amor, considerado o elixir mais importante da renovação. A pessoa que equipa e melhora seu coração com fé em Deus e ciência d’Ele, sente – em proporção àquela fé e conhecimento – afeição profunda e vasto amor por todos os seres humanos e, de fato, por toda criação. Assim, ela passa toda a vida no fluxo e refluxo de um amor abrangente, vivendo em um estado de arrebatamento e êxtase, afinidade e um sentimento de ser atraído por Deus e prazeres espirituais. Como em todos os períodos, agora é necessário que corações se tornem exuberantes e entusiasmados com amor, transbordem com zelo jubiloso e tenham um novo entendimento para concretizar essa grande renovação. Pois, sem amor, é impossível criar um esforço ou movimento duradouro e efetivo em suas consequências. Da mesma forma, é necessário focar na eternidade. Podemos entender o amor divino como: estar perante Deus; estabelecer nosso lugar dentro das relações da criação; viver para sentir o prazer de termos sido criados por Ele e de sermos a sombra da luz de Deus; aceitar que agradá-Lo é o objetivo das criaturas e a razão da criação; sempre buscar o amor e prazer d’Ele. Tal amor por Deus é uma fonte infinita e misteriosa de poder, viva-a e aproveite-a plenamente.

O Ocidente inteirou-se do amor em suas nuanças materiais com os filósofos. Sob o clima nebuloso da filosofia, o Ocidente provou do amor, mas teve dúvidas, indecisões, suspeitas e incertezas durante o processo. Nós olharemos a existência e suas fontes através das lentes do Alcorão e da Sunna. Ao recorrermos e nos referirmos aos princípios harmoniosos destas duas fontes e ao nos direcionarmos à sua imensidão abertos à metafísica, perceberemos o amor – amor febril que inflama nossos corações – pelo Criador e a afeição que sentimos por causa d’Ele por toda a existência. Pois, nessas duas fontes (Alcorão e Sunna), a origem do homem, seu lugar no universo, o objetivo de sua existência, o caminho que ele seguirá e seu destino estão tão de acordo com os pensamentos, sentimentos, consciência e expectativas deste? que é impossível não se maravilhar e se admirar.

Para a pessoa de coração, estas duas fontes luminosas são uma vertente de fervor e uma atrativa fonte de riqueza espiritual. Aqueles que se voltam a elas com pureza e sinceridade de sentimentos e, em necessidade, não sairão de mãos vazias, e aqueles que buscam refúgio nelas viverão eternamente. Essas fontes são suficientes, contanto que aqueles que as tomam como referência e buscam refúgio o façam com a sinceridade e profundidade de um Imã Ghazali, Imã Rabbani, Xá Wali ou Bediüzzaman Said Nursi; contanto que eles as abordem com o entusiasmo e excitação de Jalal al-Din Rumi, Xeique Galip ou Mehmed Akif Ersoy; contanto que se voltem a elas com a fé e atitude de Khalid ibn Walid, Uqba bin Nafi, Salah al-Din Ayyubi,Sultão Mehmed, o Conquistador, ou Sultão Selim II. Misturar o fervor que transborda e abrange todas as épocas e lugares com as maneiras, estilos e métodos do período contemporâneo para alcançar o espírito do Alcorão – que nunca envelhece, mas supera todas as épocas – e, portanto, alcançar a metafísica universal constitui nosso segundo passo.

O terceiro atributo dos herdeiros é voltar-se para ciência com o trio de razão, lógica e consciência. Numa época em que a humanidade está sendo arrastada por certas fantasias obscuras, tal movimento – que será, também, uma resposta à tendência geral dos seres humanos – será um passo importante para a salvação de toda humanidade. Como Bediüzzaman salientou, no fim dos tempos, a humanidade voltar-se-á com toda força para o conhecimento e ciência,extrairá todo seu poder do aprendizado, e o poder passará, mais uma vez, às mãos da ciência. A pureza do discurso (fasahat), eloquência (balaghat) e expressão superior, ou retórica, serão objeto de interesse de todos, ou seja, passaremos novamente por uma era de aprendizado e linguagem. De fato, não há outro meio para limparmos a atmosfera nebulosa de conjeturas que nos rodeiam e alcançarmos a verdade e a Verdade das verdades. Superar o vácuo dos últimos séculos, alcançar plenitude de habilidades e informações e colocar-nos à prova mais uma vez, reparando o dano subconsciente do estado débil e magoado que aturamos ano após ano, depende da representação e expressão científica que passa pelo prisma do pensamento islâmico.

Com relação ao passado recente, como sua direção e objetivos não foram definidos, o conhecimento foi misturado à ciência positivista e à filosofia materialista. Tivemos sério caos no pensamento científico e cientistas sofreram perdas de estima irreparáveis. Esse vácuo foi útil aos estrangeiros. Eles estabeleceram escolas e instituições, diligentemente, em cada canto do nosso mundo e injetaram desavença e estranheza em nossos descendentes usando aquelas instituições de ensino. Alguns membros de nossa comunidade colocaram seus filhos talentosos e inteligentes naquelas instituições em humilhação abjeta e, assim, apressaram ainda mais a desavença e estranheza. Após um tempo, nada restou – fé ou religião – àquelas gerações jovens, inexperientes e traídas. Fé e religião foram arruinadas e apodreceram. Em toda nação, fomos sujeitados à prodigalidade, barateza e banalidade do egoísmo em nossos pensamentos, sentidos, concepções e artes.

As razões porque isso aconteceu são óbvias. Naquelas escolas e instituições, sem exceção – escolas às quais confiamos as mentes de nossos jovens sem pensar duas vezes e sem preocupações –, a cultura americana, moralidade francesa, costumes e tradições ingleses foram mantidos e promovidos acima da ciência e do pensamento científico. Portanto, em vez de nossos jovens se ajustarem à época em que viviam pela ciência, metodologia e tecnologia, eles se agruparam em vários campos e facções e começaram a brincar com marxismo, durkheimismo, leninismo e maoísmo. Alguns se consolaram com sonhos de comunismo e ditaduras de proletariado;outros sucumbiram a complexos freudianos; alguns perderam a cabeça para o existencialismo e se emaranharam com Sartre; outros disseram bobagens sobre o sagrado ao citar Marcuse; alguns outros desperdiçaram suas vidas entre os delírios de Camus. Tudo isso foi vivido e experimentado em nosso país, as chamadas “casas de ciências” foram responsáveis por nutrir e alimentar tais ideias e experiências. Durante aqueles períodos de crise, algumas das mais obscuras vozes continuamente denegriram e difamaram a religião e os religiosos, manifestando incessantemente as loucuras e insanidades originadas no Ocidente. Certamente, é impossível esquecermos aqueles tempos e seus peões baratos. Aqueles que prepararam tais circunstâncias em detrimento do nosso povo e do nosso país serão sempre lembrados como culpados, condenados pela consciência coletiva.

Agora, deixando de lado aqueles períodos obscuros e seus organizadores, de ações e posições maldosas, que revirarão nossos estômagos e magoarão nossos corações, gostaríamos de falar sobre os artífices do pensamento que construirão nosso futuro.

Por meio do pensamento científico e da compreensão, conforme percebemos há muito tempo (bem antes do Ocidente), devemos mergulhar e imbuir nossas gerações mais jovens com ciência e ideias e, assim, realizar nossa renovação, nossa Renascença. A aflição e dor causadas pela sina desafortunada do passado, ainda sentidas na consciência coletiva, a exasperação e palpitação produzidas por anos de dominação estrangeira, as reações à negligência e exploração dos últimos séculos fazem nosso povo chorar lamentos como os do Profeta Adão, gemer como o Profeta Jonas, sofrer e lamentar-se como o Profeta Jó. Após tais suspiros, lamúrias, pensamentos, sentimentos e esforços, e guiados pela experiência histórica e pelos resultados de esforços e eventos, sentimos que tempo e espaço começaram a encolher e os dias esperados não estão tão distantes, mas, na verdade, apenas alguns passos adiante.

O quarto atributo dos herdeiros é a ação de revisar suas perspectivas sobre o homem, a vida e o universo, analisar e criticar seus próprios erros e acertos. Analisaremos três pontos sobre esse assunto:

a. O universo é um livro exposto pelo Criador aos olhos dos homens para que seja consultado frequentemente. O homem é uma lente aberta a observar a profundidade da existência e um índice transparente de todos os mundos. Vida é uma manifestação, um conjunto de formas cujos significados são filtrados daquele livro e índice, e reflexão daquilo que reverbera do discurso Divino. Se o homem, a vida e o universo fossem considerados diferentes entre si por causa de suas formas e cores externas, quando são, na verdade, diversas faces da mesma verdade, então a separação deles arruinaria a harmonia da verdade, o que seria uma iniquidade, injustiça e desrespeito contra os homens e a existência.

Assim como é uma obrigação ler, entender e submeter-se à Palavra de Deus – que vem de Seu atributo divino Discurso–, é essencial e indispensável conhecer e entender Deus na inteireza das coisas e eventos que Ele planejou com Seu Conhecimento e criou com Sua Vontade e Poder Divinos, e depois buscar conformidade e congruidade em todas as coisas e eventos. O Alcorão também veio do atributo de Deus do Discurso; ele é a alma da existência e única fonte de felicidade. O livro do universo é o corpo dessa verdade e uma dinâmica muito importante desse mundo, diretamente, e do outro mundo, indiretamente, com relação aos vários ramos da ciência nele incluídas e representadas. É por isso que entender e pôr esses dois livros em prática e organizar a vida em sua totalidade de acordo com eles merece retribuição, e negligenciá-los, ignorá-los e, mesmo, ser incapaz de interpretá-los e aplicá-los à vida merece punição.

b. A verdadeira profundidade do humano deveria ser buscada na sagacidade, no pensamento e no caráter da pessoa. Da mesma forma, o crédito, estima e valor do indivíduo aos olhos das pessoas e de Deus também deveriam ser buscados. Os atributos humanos superiores: profundidade de compreensão e pensamento e firmeza de caráter, são como uma nota de crédito ou carta de referência aceitas em toda parte. Aqueles que mancham sua fé e entendimento com pensamentos e atributos semelhantes aos dos descrentes que causam ansiedade e medo em torno de si por causa de seu caráter nunca poderão obter a ajuda e favores da Verdade, nem conseguirão manter seu crédito, estima e confiança aos olhos das pessoas. Pois, as pessoas e Deus Todo-Poderoso julgam os indivíduos por seus atributos humanos e por seu caráter superior e os retribuem adequadamente. Por isso, aqueles que são pobres em atributos humanos e de caráter fraco dificilmente conseguem alcançar grandes realizações e sustentá-las, apesar de parecerem bons crentes. Por outro lado, aqueles que estão alguns passos à frente na firmeza de caráter e atributos humanos superiores dificilmente falharão completamente, mesmo que não pareçam ser bons muçulmanos. Assim como a estima, desígnios e recompensa de Deus ocorrem de acordo com os atributos da pessoa, a acolhida amigável ou aceitação por parte dos seres humanos, de certo modo, também dependem disso.

c. Os meios para se alcançar uma meta legítima e direita também devem ser legítimos e direitos. Para aqueles que estão na senda islâmica, a legitimidade do objeto de seus esforços em toda empreitada é um direito, e a legitimidade dos meios para alcançar aquele direito é uma obrigação. Como o prazer de Deus e a união com a Verdade não podem ser obtidos sem sinceridade e sem que existam pelo amor aDeus, o serviço ao Islam e a jornada dos muçulmanos paraseus verdadeiros objetivos e metas não podem ser realizados por meios e caminhos maléficos. Muito pelo contrário, aqueles que perderam o favor de Deus Todo-Poderoso e a inclinação favorável das pessoas por consumirem seus valores, crédito e estima em caminhos vãos, inválidos e falsos não podem esperar progredir por muito tempo.

O quinto atributo dos herdeiros é ser capaz de pensar livremente e respeitar a liberdade de pensamento. Ser livre e gozar da liberdade são uma dimensão importante da vontade humana e uma porta misteriosa através da qual o indivíduo pode avançar nos segredos do “eu”. Aquele que é incapaz de avançar naquela dimensão e não consegue atravessar aquela porta mal pode ser chamado de humano.

Por muito tempo, contorcemo-nos nos terríveis grilhões da escravidão mental que sujeitou nossos pensamentos e sentimentos a vários abusos, tanto internos quanto externos. Nas épocas em que restrições eram impostas à leitura, pensamento, sentimento e modo de vida, era impossível ao indivíduo reter suas faculdades humanas, e muito menos alcançar renovação e progresso. Nesse tipo de situação, é muito difícil manter até mesmo o nível mental do homem simples e comum, quanto mais ver emergir grandes personalidades que se agitam com o espírito de renovação e reforma, e cujos olhos estejam postos no infinito. Em tais condições, há apenas caráteres fracos que sofrem desvios de personalidade e homens de almas morosas e sentidos paralisados.

Em nosso passado recente, visões distorcidas, desviadas,enfermas e critérios defeituosos foram forçados em nossas almas, incluindo nosso lares, ruas, instituições educacionais e círculos artísticos em detrimento de tudo: do material ao imaterial, da física à metafísica. Durante aqueles anos, expressávamos nossas obsessões quando deveríamos estar pensando. Planejávamos tudo egoisticamente, sem nunca reconhecer que poderia haver outros pontos de vista, crenças e entendimentos além dos nossos. Assim que encontrávamos a oportunidade, voltávamo-nos ao poder e com força bruta administrávamos medidas punitivas contra o direito e a livre vontade. Estávamos sempre perseguindo e provocando alguém. É uma grande pena que, mesmo hoje, é impossível dizer que tais coisas deixaram de acontecer ou que nunca mais acontecerão.

Contudo, conforme caminhamos em direção à renovação, é imperativo que revisemos as dinâmicas históricas dos últimos milênios e questionemos as mudanças e transformações dos últimos cento e cinquenta anos. Isso é imperativo porque julgamentos e decisões são feitos hoje de acordo com certos tabus inquestionados. Certas visões que governam essas decisões as tornam inválidas e defeituosas e nunca serão produtivas ou contribuirão para o futuro radiante que esperamos. Se o futuro fosse preparado com o entendimento corrente, os resultados seriam: conflitos entre populações presas nas redes implacáveis das ambições;tumultos entre partidos políticos; lutas entre nações e escaramuças entre poderes. Essa é a razão pela qual, hoje, uma seção da sociedade entra em conflito com outra, diferenças transformam-se em lutas e essa é a razão para o terror, brutalidade e derramamento de sangue dominantes no mundo. Não fosse pelo egoísmo, avareza, ambição e crueldade dos humanos, o mundo, provavelmente, seria bem diferente de seu presente estado.

Por isso, conforme nos aproximamos de diferentes mundos, levando em consideração tanto nossas próprias atitudes para com os outros e para conosco mesmos quanto nossas ambições, precisamos pensar mais livremente e ter mais livre arbítrio. Precisamos daqueles corações vastos que possam abraçar o pensamento livre e imparcial, que estejam abertos ao conhecimento, ciências e pesquisa científica e que possam perceber a concordância entre o Alcorão e a Sunnatullah no vasto espectro do universo e da vida. No passado, indivíduos geniais assumiram e executaram essas imensas tarefas. Hoje, no entanto, elas só podem ser cumpridas por uma comunidade que toma para si a missão de tais homens geniais. Como tudo se tornou tão detalhado, particularizado, especificado e enumerado, essas tarefas agora assumem formas que mesmo indivíduos únicos e extraordinários não podem realizar sozinhos. Por isso, o lugar da genialidade foi substituído pela consciência coletiva, com processos de decisão consultivos e coletivos, e pela consciência social, que é o resumo do sexto atributo dos herdeiros.

É fato que, até recentemente, a comunidade islâmica não possuía tal entendimento. Na verdade, não foi possível implementar uma consciência coletiva, processos de decisão consultivo-coletivos, uma mente e moral coletivas enquanto as escolas simplesmente ditavam seus dogmas,as faculdades lidavam apenas com alguns aspectos superficiais da vida,os alojamentos dervixes estavam totalmente soterrados pela metafísica e os militares urravam e gabavam-se de seu “poder”. Durante aquele período, escolas continuavam sob a influência e respiravam o ar do escolasticismo rígido; faculdades estavam fechadas à ciência e ao pensamento, privadas de sua capacidade de se desenvolver, e viviam paralisadas; alojamentos dervixes consolavam-se com anedotas do passado em vez do fervor; aqueles que representavam o poder sentiam, erroneamente, que haviam sido esquecidos e sofriam de uma necessidade constante de fazer-se lembrar e de provar seu poder. Portanto, tudo se tornou desordenado, e a árvore da nação foi sacudida e quase arrancada do solo. Infelizmente, parece que passaremos por abalos semelhantes até o dia em que as pessoas afortunadas que aguardamos empreguem as dinâmicas corretas, no local e tempo certo, removam os bloqueios entre o coração e a mente e estabeleçam vias de pensamento e inspiração na dimensão esotérica da humanidade.

O sétimo atributo dos herdeiros é o pensamento matemático. No passado, pessoas da Ásia Central e, mais tarde, do Ocidente realizaram suas renascenças com as leis do pensamento matemático. O homem descobriu e trouxe à luz muitos elementos incertos e desconhecidos do misterioso mundo os números. Sem chegar aos mesmos extremos que os hurufis[i], afirmamos que sem a matemática é impossível entender as relações entre humanidade e fenômenos naturais. Ela ilumina nossos caminhos com uma luz que se estende do universo à vida; indica-nos o que está além do horizonte humano, mesmo nas profundezas do mundo das eventualidades, e é muito difícil de ser imaginado; faz com que realizemos nossos ideais.

Por outro lado, ser matemático não significa conhecer tudo que está relacionado à matemática. Significa pensar matematicamente, pensar dentro das leis da matemática e estar ciente de que ela permeia tudo: desde os pensamentos do homem até as profundezas da existência; da física à metafísica; da matéria à energia; do corpo à alma; da lei ao sufismo. Para compreender a existência em sua inteireza, precisamos aceitar o método que combina pensamento sufista e pesquisa científica. Ao Ocidente, basicamente, falta essência e tenta-se compensar por essa perda,refugiando-se em misticismo. Em nosso mundo, que sempre foi íntimo da alma do Islam, não há necessidade de buscarmos nada estranho ou estrangeiro, nem de tomarmos refúgio em nada. Temos todas as fontes de poder em nosso sistema de pensamento e religião. Isso basta, contanto que compreendamos essa fonte e espírito em sua riqueza original. Então, veremos algumas das misteriosas relações da existência, como elas interagem harmoniosamente, e alcançaremos um conhecimento diferente da observação e do deleite sentido em tudo.

Esse é apenas um breve sumário ou introdução ao pensamento matemático. Apesar de parecer vago e um desperdício de palavras, acredito que o pensamento matemático terá grandes ecos no futuro.

O oitavo atributo é nosso entendimento da arte. No entanto, devido a certas considerações presentes, direi: “Certos círculos não estão prontos ainda para iniciar tal jornada de acordo com nossos critérios, deixe isso para o futuro”.


[i] Hurufis: antiga seita que fazia previsões utilizando correspondências astrológicas das letras, a onomatomancia.

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